quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MITO TICUNA DA CRIACÃO DO MUNDO


O INICIO DA HISTÓRIA
Antes do mundo existir, Ngutapajá existia. Ele não teve pai nem mãe. Mapana, a mulher de Ngutapa, se conjuntó com ele. No mesmo lugar viviam também Baia e sua mulher. Baia era parente de Ngutapa. No lugar onde esses quatro se criaram é onde ficava a montanha Taiwegüne. E no igarapé Tonetü. Naquele tempo, a terra ainda estava se formando. O mato era baixinho e o rio ainda tinha pouca água. Lá eles viviam. Passaram-se muitos anos. Ngutapa e Mapana nunca habitaram juntos. Nunca tiveram filhos. Um dia, quando o mato já estava crescido, Ngutapa foi caçar com Mapana. No caminho eles começaram a brigar. Ngutapa agarrou sua mulher e lhe deu uma surra. Depois disso, amarrou Mapana num pau, de braços e pernas abertos. Deixou ela aí e seguiu para caçar no mato. Vieram as cabas e as formigas e morderam a sua periquita. Ela sofreu muito. Então apareceu o pássaro cancã e se sentou no alto do pau onde ela estava amarrada. Mapana disse para o cancã: Vovó, pode me desamarrar? 

O pássaro gritou: Co-co-co-cou!
Vovó, venha me desamarrar. Aquele desgraçado me prendeu aqui para me matar - ela falou de novo. O cancã se transformou em gente e, chegando mais perto, perguntou: O que lhe aconteceu, minha neta? Se você quiser se vingar de Ngutapa, está aqui a caba. Ela pegou a caba e guardou. A casa de caba era muito grande, mas parecia pequena. O Cancã falou ainda: Você não pode ficar aí. Tem que esperar o seu marido num lugar onde ele não possa ver. Depois disso, o cancã se transformou em pássaro e foi embora. Demorou um pouco e Ngutapa voltou da caçada. Vinha tocando flauta e pulava numa perna e noutra, cantando: Por onde anda Mapana?! As cabas e as formigas morderam a periquita dela! Tcheruru tcheruru-u-u-u... Tcheruru tcheruru-u-u-u... assim dizia. Mapana estava escondida num tronco de árvore, esperando Ngutapa passar. Escutou esse canto e se preparou. Quando ele chegou, ela jogou a casa de caba em cima dele e acertou-lhe os dois joelhos. Ngutapa caiu e não se levantou mais. Mapana deixou ele aí mesmo e foi embora. Ngutapa foi se arrastando até em casa. Desde que as cabas ferraram. Seus joelhos começaram a inchar.

COMO NASCERAM YOI E SEUS IRMÃOS
Quando Ngutapa chegou em casa, foi logo se deitar na rede. Mapana viu o marido chegar, mas nem ligou. Não queria mais saber dele. Quando anoiteceu, Ngutapa começou a sentir  muita dor nos joelhos. Sofreu muito e chorou. Depois de uma semana, os joelhos cresceram. Começaram a ficar transparentes e aparecia o que tinha lá dentro. Ele olhou e num dos joelhos viu duas pessoas. No outro viu outras duas pessoas. No dia seguinte, Ngutapa já podia enxergar num joelho um rapaz fazendo sua zarabatana e uma moça tecendo um buré. E no outro joelho a mesma coisa. Depois disso, passou mais um dia e os joelhos se abriram. Ngutapa olhou e de seus joelhos saíram dois homens com suas zarabatanas e duas mulheres com seus cestos. Do joelho direito, pulou Yoi e sua irmã Mowatcha e do esquerdo Ipi e sua irmã Aicüna. Aí Ngutapa ficou bom. Não sentiu mais dor.

A ONÇA COME NGUTAPA
Passaram-se alguns anos. Naquele tempo, as pessoas imortais, ü-üne, cresciam muito depressa. Por isso, os filhos de Ngutapa logo ficaram grandes. Um dia, Ngutapa saiu para pescar com timbó e Yoi e Ipi foram caçar no mato. Enquanto Ngutapa pescava, um espinho entrou em seu pé. Estava tirando esse espinho, quando uma onça chegou por trás c o engoliu.

Quando Yoi e Ipi voltaram da caçada, não encontraram o pai em casa. Eles não sabiam o que tinha acontecido e ficaram preocupados então perguntaram para Mapana: Vovó, onde está nosso pai? Ela disfarçou e respondeu outra coisa: Vassoura rodou. E eles de novo: Cadê nosso pai? Nós queremos saber o que aconteceu com ele.
O dente de cotia rói  - ela disse.
Mas onde está nosso pai?
Vassoura rodou - falou Mapana novamente. Depois deles insistirem muito, ela acabou contando: A cinza, tau’ü, caiu em cima do pai de vocês. Com essas palavras, Yoi e Ipi entenderam que a onça havia comido Ngutapa. Ipi, que sempre falava primeiro, disse para Yoi: Irmão, irmão, o que nós vamos fazer para encontrar nosso pai? Vamos tirar um cabelo de nossa irmã e com ele dar uma volta ao redor do mundo todo.
 
Calma lá - disse Yoi. Yoi pensava mais para resolver as coisas. Ipi insistia: Irmão, irmão, vamos tentar fazer isso? Mas antes Ipi resolveu fazer uma cerca e Yoi concordou. Yoi pensou nas estacas e elas apareceram. Depois de aprontarem tudo, a cerca, a porta, eles tiraram um fio de cabelo de Mowatcha (Mowatcha era a irmã que saiu do mesmo joelho que Yoi). Com esse fio, eles deram a volta no mundo e juntaram as duas pontas na porta da cerca. Aí foram puxando as pontas do cabelo e apertando o mundo. As águas vieram atrás, como uma alagação. Depois disso, Yoi ficou de um lado da porta e Ipi, com sua irmã Aicüna, do outro lado (Aicüna era a irmã que saiu do mesmo joelho que Ipi). Os bichos começaram a passar. Primeiro os caititus. Depois os veados. E depois outros veados. Depois vieram as queixadas e as onças vermelhas. Só no fim começaram a passar as onças mesmo. Yoi desconfiou que entre essas onças estaria aquela que havia comido Ngutapa. E perguntou a uma delas: Vovó, você pode me dizer onde está aquela nossa inimiga? A onça respondeu: Ela está lá no final. Mandou Yoi escutar uma voz que vinha lá de trás, gritando. Era a onça que vinha soprando no bucho de Ngutapa. Falava: Arütü  e’ri düa, duo, durumü, durumü! Por essa voz, eles descobriram que aquela era a onça que tinha engolido o seu pai. E, quando ela chegou mais perto, lhe perguntaram: vovó, o que você vinha falando? A onça não quis responder, mas de dentro dela veio aquela voz que dizia: Nada, nada, nada, meu neto. Nada, nada, nada, meu neto. Yoi, Ipi e sua irmã Aicüna já estavam preparados para pegar a onça. Aicüna tinha se transformado em jacaré. Eles levaram a onça para a beira do rio, mas ela escapou e pulou na água. Então o jacaré carregou a onça para o fundo e desapareceu. Ipi falou: Irmão, irmão, irmão, o que nos vamos fazer agora para achar o jacaré? O rio está muito grande, muito cheio. Vamos convidar o cupim para secar essa água?
Chamaram o cupim e ele logo apareceu. Ele era bem alto, mas o tamanho certo ninguém sabe qual é. Mas o cupim só conseguiu secar um pouco da água. Aí Ipi falou: Irmão, irmão quem nós vamos convidar agora? E resolveram convidar a cigarra. Ipi perguntou a ela: Será que você pode secar a água para nos?! A nossa irmã virada em jacaré está lá no fundo com a onça. A cigarra tentou secar o rio, jogando a água para fora, mas estava com caganeira e não pode trabalhar muito. Cada vez que fazia força para tirar água, saia cocô: pôu! pôu! pôu! Assim o trabalho não rendeu e o rio secou só mais um pedacinho.
Aí Ipi resolveu: Irmão, irmão, vamos então convidar o Cawa? Yoi concordou e eles chamaram o Cawa. Este Cawa é uma pessoa e quer dizer “gente gulosa”. Ele chegou e foi chupando a água. Foi chupando, chupando até encher as orelhas e os cabelos. Assim conseguiu secar o rio. Meus netos, agora podem descer e procurar sua irmã. Depressa! - disse o Cawa. Então eles desceram até a boca do rio e lá encontraram o jacaré descansando. Conseguiram tirar a onça da sua boca e neste momento o jacaré se transformou outra vez em gente. Voltaram para cima com Aicüna e também com a onça. Chegando lá, o Cawa falou: Já, meus netos? Então ele vomitou toda a água que tinha chupado e o rio tornou a encher. Só aí puderam tirar Ngutapa de dentro da onça. Pegaram todos os pedacinhos de carne, juntaram de novo e Ngutapa se levantou falando: Eh! Vocês me assustaram!

COMO APARECEU O DIA

Um dia, Ipi falou a Yoi:
Agora nós vamos ver a história da samaumeira.
Naquele tempo não existia o dia. Era sempre noite.
Os galhos da samaumeira eram muito grandes e cobriam
o mundo, escurecendo tudo. Um dia, Ipi falou a Yoi: Irmão, irmão, o que nós vamos fazer para clarear o dia? Resolveram então procurar um caroço de araratucupi, para ver se conseguiam abrir um buraco na samaumeira. Logo que acharam Ipi jogou o caroço na samumeira, fazendo um barulho: Fürürürü! ëëëëê! Mas nem um pouquinho de luz apareceu. Ipi, então, falou para o irmão fazer o mesmo. Yoi jogou o caroço e se ouviu um outro barulho: ngune, ngune, ngune! Desta vez se abriu um pequeno buraco e se pôde ver um pouco de luz. Mas essa luz logo desapareceu, porque os galhos da samaumeira eram vivos e se fecharam. Ipi falou: Irmão, irmão, o que nós vamos fazer agora?
Ficaram pensando em algum animal que pudesse derrubar a arvore. De repente ouviram a voz do pinica-pau: pururu, pururu. Yoi, então, convidou este passarinho. Quando o pinica-pau chegou, tentou cortar a árvore com seu bico, mas não conseguiu e foi embora.
Yoi e Ipi ficaram pensando, pensando... Aí ouviram no buraco de um pau uma voz que fazia: tu, tu, tu, tu, tu.
É uma cotia. Vamos chamá-la - disse Yoi. É uma cotia mesmo. Ela tem um machado - disse Ipi. Ipi se interessou por este machado e queria matar a cotia para ficar com ele. Mas Yoi alertou: Cuidado! Pensar assim é errado. Ipi insistiu e foi até o caminho da cotia. Mas antes fez um disfarce: pintou o corpo e botou penas por todo ele. E desse jeito foi esperar a cotia. Yoi sabia por que o irmão estava com essa roupa, mas nada falou. Ipi ticou deitado e só as penas apareciam. Fingiu que estava dormindo, mas sua boca ficou aberta. A cotia veio batendo nos paus com o machado dela: tu, tu, tu, tu, tu. Olhou e viu aquelas penas de passarinho e por três vezes perguntou: O que está fazendo aí? Ipi nada respondia. Ele pensava: Se sou só pena de passarinho, então não posso falar. A cotia disse: o que é isso?! Se não me responder, eu vou mijar na sua boca. Ele continuou sem responder e a cotia pensou: Nem responde... É mesmo que morto. E ameaçou: Cuidado que eu vou arrancar a sua língua. Ipi, mesmo com medo, falou: Pode arrancar, pode meter a mão na minha boca. Quando ela se aproximou, Ipi aproveitou e ela arrancou a paleta. Essa paleta era o machado. Depois disso, a cotia saiu mancando, sem a perna de trás. Ipi fugiu com o machado, mas a cotia o perseguiu gritando: Olhe, Ipi, quando você fizer roça, não fale no meu nome. Você tomou o meu machado, por isso daqui pra frente eu vou roubar a roça de vocês. A cotia, para cobrar esse roubo, até agora gosta de roubar as roças. Foi da perna dela que os Ticuna conseguiram o machado. Agora. essa cotia não pode mais plantar. Só a cotia pequena é que ainda tem o machado. Ipi voltou e disse para Yoi: Irmão, irmão, irmão, agora eu já tenho o machado. Estou pronto para derrubar a samaumeira. E começou a trabalhar. Fazia: tu, tu, tu, tu, mas nada de derrubar. Continuou, continuou até cansar e o buraco não aumentava. Abria um pouco e tornava a fechar. Chamou Yoi para que ele tentasse também.
Então Yoi veio e cortou, cortou, e o lugar onde o machado batia foi se abrindo. Ipi viu o trabalho do irmão e perguntou: Por que o meu não dá certo?
Não fale desse jeito - disse Yoi. Quando se cansou, Yoi entregou o machado para Ipi e este continuou a derrubar a samaumeira. Desta vez o corte não se fechou. Continuaram derrubando, um pouco um, um pouco o outro, mas a árvore não caia.
Yoi olhou e pensou: Já está tão fininho, por que não cai?. Aí os irmãos olharam para cima e viram a preguiça real, lá no alto, segurando a árvore. Pensaram: O que podemos fazer para ela largar?. Falaram entre eles, mas um quatipuru estava perto e ouviu. Disse-lhes que teria coragem para tirar a mão da preguiça do galho. Yoi aceitou e o quatipuru subiu só até a metade: trrrrrrn. Desceu sem coragem,  porque achou muito alto. Então Yoi resolveu buscar um bocado de formiga de fogo para jogar no olho da preguiça. Deu as formigas para um quatipuru pequeno que apareceu. Este disse que teria coragem para fazer o trabalho. E foi ate lá só para experimentar: tauripiriririrrrrr. Voltou e falou que dava certo jogar as formigas. Subiu novamente e atirou as formigas no olho da preguiça e depois deu um pulo para trás. Quando ele pulou, o machado lhe machucou o rabo. Por isso este quatipuruzinho tem o rabo dobrado nas costas. Enfim, a samaumeira caiu e o dia começou a clarear. Aí puderam ver o sol, o céu, as estrelas. Ficaram animados. Depois disso, o dia amanhecia sempre da mesma maneira. Yoi e Ipi entregaram sua irmã Mowatcha para se casar com o quatipuruzinho, porque ele era corajoso.



O CORAÇÃO DA SAMAUMEIRA
Depois de passado um tempo da derrubada da samaumeira, Ipi foi ate lá para ver se a árvore já tinha apodrecido. Mas ela continuava viva, o pau começou a brotar de novo. O que tem essa arvore que não quer morrer?, pensou Ipi. Foi ver de perto e escutou um barulho: tu, tu, tu. Aí disse para Yoi: Essa árvore tem coração, está viva. O que podemos fazer? E continuou: Eu mesmo vou tirar esse coração com o machado. Ipi começou a cavar. Yoi logo tomou seu machado e quis também cortar. Ipi, como sempre, queria ser o primeiro, ser dono de tudo, e quis pegar de novo o machado. E assim os dois ficaram disputando todo o tempo. Por fim, Yoi conseguiu cortar com força e o coração pulou. Ipi disse: Maninho, eu mesmo vou pegar.

Porém, um calango estava perto, cuidando, e acabou comendo o coração. Mas não conseguiu engolir e o coração ficou parado em sua garganta. Vendo isso, Ipi preparou um tição de fogo e botou na garganta do calango. Ele gritou e o coração pulou para fora. Então uma grande borboleta azul engoliu o coração. E Ipi com aquele mesmo fogo queimou a asa da borboleta e ela vomitou tudo. Por isso, a borboleta azul tem manchas na asa. Depois, o coração entrou num buraco de pedra muito pequeno. Daí era difícil de tirar. Yoi, então, chamou a cotia e falou: Vá lá e roa o coração pelo lado direito. Depois traga o caroço e plante lá no nosso terreiro. Esse coração era como uma semente. A cotia fez o que Yoi pediu. Ipi não sabia onde a cotia tinha plantado o caroço do coração. Começou a varrer o terreiro, procurando o lugar onde ele estava enterrado. Varreu durante dias e dias. Ele sabia que essa planta iria servir para alguma coisa. Passado um tempo, começou a nascer uma árvore de umari.

HISTÓRIA DE TETCHI ARÜ NGU ‘Ü
Passou um ano. A árvore já estava em tempo de botar flor e fruto. Ipi cuidava muito dela, varria, capinava, deixava tudo limpo. Um dia, Ipi foi ver e disse para Yoi: Veja, começou a florar o primeiro olho.
Não se preocupe tanto com essa fruta do umari - disse Yoi. Quando Ipi olhou outra vez, o umari tinha nascido. Esse umari vai ser meu — disse ele. Não se preocupe tanto. Cale a boca - falou Yoi. A primeira fruta já estava amarelando, uma só. Ipi ficava todo tempo olhando aquele umari. Nem dormia, só olhava, olhava. Ele sempre dizia: Esse vai ser meu. Pode ficar - respondia Yoi. Depois de vários dias esperando que o umari caísse na sua mão, Ipi começou a ter fome, sono e sede. Um dia não agüentou e disse para Yoi:  Maninho, acho que vou caçar, porque tenho fome. Quando cair a fruta, você não pega. Deixe aí que eu volto. Yoi estava se embalando na maqueira e de repente o umari caiu. Ipi ainda estava no mato caçando. Quando Yoi foi ver, esse umari era uma moça. Ele foi conversar com ela. Era bonita e nova. Chamava-se Tetchi arü ngu ‘ü, que quer dizer: “moca do umari”. Yoi pegou a moça e levou para casa para ser sua mulher. Lá diminuiu Tetchi arü ngu’ü e escondeu-a numa flauta de osso. Quando Ipi chegou do mato já era tarde. Começou a arrumar a zarabatana e foi logo olhar o umari. Ele viu que a fruta não estava mais lá e perguntou para Yoi:  Irmão, você viu o umari cair? Ele não está mais aqui. Não foi você que tirou?
Eu não sei de nada. Alguém deve ter achado - respondeu o outro, tentando enganar o irmão. Anoiteceu e Ipi não conseguia dormir. Ele sabia que o umari era uma moça e estava desconfiado que Yoi tinha guardado ela. A moça e Yoi estavam conversando e rindo. Ipi ouviu e perguntou com quem ele estava: É com a vassoura que eu estou rindo, não estou com sono e peguei uma vassoura - disse Yoi. Ipi então foi pegar uma vassoura, mas a sua não ria. A moça achou graça disso e Ipi tornou a perguntar: Quem está aí?
É  um banco que está aqui e eu estou brincando com ele - respondeu Yoi. Aí Ipi foi pegar um banco, mas não aconteceu nada. Ele continuou intrigado. Yoi disse outra vez que estava brincando com o quiricá. Mas Ipi experimentou e de novo não aconteceu nada. O quiricá não riu. A moça tornou a rir e Yoi também. Ipi ficou muito intrigado.
Um dia, Yoi foi caçar e Ipi ficou em casa para procurar a moça. Yoi sabia o que o irmão pensava. Ipi achou que ela ia aparecer para ele. Esperou e nada. Resolveu fazer alguma coisa para atrair Tetchi arü ngu ‘ü. Trouxe peixinhos lá do porto e botou-os no forno quente. Os peixinhos pulavam e ele dizia: Tchautarucunhe, tchautaracunhe, tchautaracunhe!

A mulher de Yoi achou graça e Ipi ouviu sua risada, mas não a encontrou. Ele repetiu essa brincadeira por quatro vezes, assando mais peixinhos, mas não encontrava a moça. Desconfiou que ela deveria estar na flauta. Procurou por duas vezes. Na segunda vez, encontrou a flauta e a sacudiu até que Tetchi arü ngu’ü saiu. Logo Ipi beijou a moça e habitou com ela. Na mesma hora sua barriga encheu. Ipi tentou diminuir a moça para colocá-la dentro da flauta, mas não deu, porque ela já estava barriguda; Aí, ele ficou com medo do irmão, que já estava para chegar. Resolveu sair de casa para encontrar Yoi. No caminho, viu a fruta de paxiüba e pegou o pó para encher a sua pica. E pensou: Agora Yoi não vai saber que habitei com a mulher dele. Quando eles se encontraram, Ipi disse: Irmão, irmão, irmão. Olhe minha pica, está bem cheinha! De repente, o pó da fruta de paxiüba caiu. Yoi não gostou disso e falou: Olhe, você está doido mesmo.
Mas, maninho, eu não fiz nada para sua mulher.
Quando chegaram em casa, Yoi viu a mulher já barriguda. Ipi ficou com vergonha e perguntou: o que vamos fazer agora? Sua mulher já está barriguda. Eu não sei, agora é você quem sabe. Quando estava quase na hora de nascer a criança, Ipi quis saber o que fazer. E Yoi falou: Agora você é quem sabe. Vá apanhar fruta de jenipapo e depois rale e pinte seu filho. Se o filho fosse meu, não seria assim. Tetchi arü ngu ‘ü não iria sofrer tanto, não derramaria tanto sangue, não doeria. Mas você é doido, por isso nosso povo vai sofrer dor. Agora vai ser tudo diferente. Aí o menino nasceu. Ipi foi procurar jenipapo para pintar o corpo da criança.
Para castigar o irmão, Yoi mandou os jenipapos para longe. Ipi andou muito e sua mulher ficou em casa passando fome. Yoi não lhe deu nada para comer e beber. Quando Ipi chegou sem as frutas, perguntou a Yoi onde encontrá-las: Vá lá na nossa capoeira que tem muito -disse Yoi. Mas Ipi encontrou só árvore sem fruta. Quando contou isso para o irmão, este mandou Ipi voltar e subir na árvore bem no alto. Subiu, mas só viu dois frutos. Perguntou a Yoi: Chega esses? Quantas vezes você fica me perguntando coisas? Não lhe disse que o filho não é meu? Vá lá e pegue uma fruta só - respondeu Yoi. Mas toda vez que Ipi tentava alcançar a fruta, Yoi fazia a árvore crescer mais e mais. Cresceu até passar das nuvens e ele subindo atrás. O pé de jenipapo quase que chega na outra terra, no outro mundo. Para impedir que Ipi subisse. Yoi mandou crescer uma orelha-de-pau ao redor do tronco. Aí Ipi resolveu se transformar em formiga para poder passar pela orelha-de-pau. Conseguiu passar e lá em cima ele enxergou o rio e viu os Cambewa (Awane). E disse para Yoi: Meu irmão, no rio tem muito Awane. É  bom a gente ter cuidado com eles. Finalmente, Ipi conseguiu pegar o jenipapo.
Yoi não gostou do que Ipi tinha falado e fez crescer a orelha-de-pau outra vez. Ipi ficou pensando o que fazer: Vou virar urna tucandeira para descer e também vou diminuir esse jenipapo. Pegou o jenipapo na boca e desceu. Lá embaixo se transformou em gente de novo.

Yoi queria castigar o irmão e pensou que ele não ia conseguir trazer a fruta. Mas, chegando em casa, Ipi disse: Eu sou homem mesmo, porque agüentei esse trabalho todo. Sou homem corajoso. Ipi, então, quis saber onde ralar o jenipapo. Mas mandou Ipi buscar folha de ngu para ralar o jenipapo em cima dela. Três vezes Ipi perguntou se precisava ralar mais. Yoi respondia sempre que sim. Na quarta vez, ele já estava ralando o braço dele mesmo. O jenipapo tinha acabado. Aí perguntou para Yoi: Irmão, irmão, onde eu vou parar?
Ainda tem. Pode ralar com força - disse Yoi. Então Ipi gritou de dor e ralou todo seu corpo. Aí, Yoi mandou Tetchi arü ngü preparar a massa do jenipapo e botar no bure, cesto, sem perder nem um pedacinho. Com esse jenipapo ela pintou o filho e depois foi até o porto para jogar a borra na água. Tudo isso é pedaço do Ipi que você jogou na água - disse Yoi para a mulher.

O POVO PESCADO POR YOI
Tetchi arü ngu’ü jogou a borra do jenipapo no igarapé Evare. Depois essa borra apareceu transformada em piracema. Yoi tinha feito um cercado no igarapé, para esperar a piracema. Ele sabia que Ipi iria aparecer também e queria pescá-lo. E ficava todos os dias sentado no porto à espera do Ipi. Em casa, Tetchi arü ngu’ü sempre se lamentava com seu filho: Tenho muita saudade de seu tio Ipi. Quando ele estava vivo nada nos faltava. Sempre tinha comida em casa. Yoi nunca traz nada para a gente comer. Yoi, quando ia para casa, se disfarçava, ficava bem pequeno e por isso escutava tudo o que a mulher dizia. Então, resolveu perguntar a ela: Você tem muita saudade de Ipi? Você estava falando o nome dele.

Eu não falei o nome de Ipi. Falei que queria cantar o seu nome, Yoi - disse Tetchi arü ngu’ü. Nada, você falou o nome do Ipi - continuou Yoi. Se você falou mesmo o nome dele, amanhã nós vamos pegar uma vara de anzol para pescá-lo. No dia seguinte, foi até o igarapé para ver se os peixinhos tinham aparecido. Viu muitos peixes. Tetchi arü ngu’ü também estava ali. Yoi queria pescar aqueles peixes para que eles se transformassem em gente. Queria pescar o seu povo. Foi então buscar urna fruta de tucumã para usar como isca. Mas com a fruta de tucumã ele não conseguiu pescar gente. Os peixes se transformavam em animais. Pegou queixada, porco do mato, todos com seu par, sempre macho e fêmea. Vieram muitos animais. Então Yoi pensou que para pescar gente ele precisaria arranjar uma outra isca. Aí experimentou com macaxeira e os peixes que saiam logo se transformavam em gente. Assim pescou muita, muita gente. Seu irmão, porém, não apareceu entre esse pessoal. Foi então que ele viu um peixinho com uma mancha de ouro no nariz. Sabia que aquele era Ipi. Tentou pescá-lo, mas Ipi não pegava sua isca. Aí disse Yoi para Tetchi arü ngu’ü: Tome o anzol. Venha pegar o seu macho. Antes de Tetchi arü ngu’ü encostar o anzol na água, o peixinho pulou e pegou a isca. Saltou para terra e virou gente. Era Ipi. Ele falou: lá embaixo de onde eu venho tem muita mina, muito ouro. Eu quero voltar para lá.
Está bem, mas agora você vai pescar o seu povo - disse Yoi. Ipi pescou muita gente, mas eram todos peruanos. E aqueles que Yoi tinha pescado eram os Ticuna mesmo. Eram o povo Magüta. Do resto da borra do jenipapo, Yoi pescou os negros. Depois da pescaria estavam todos juntos. Yoi, então, resolveu virar o mundo, porque ele queria ficar para baixo, para o lado em que o sol nasce. Ipi não viu a hora em que o irmão fez essa virada. Se foi, pensando que seguia para baixo. Quando viu que estava no lado de cima, já não podia mais voltar.
Eles só foram embora mesmo depois da festa. O pessoal da festa disse: Agora já não tem mais Yoi nem Ipi no Evare. Um dia, Yoi pensou como poderia fazer para que cada pessoa tivesse sua nação. Até aquele dia só existia uma única nação e as pessoas não podiam se casar entre elas. Ele já sabia como deveria fazer, mas perguntou a Ipi. Ipi também já sabia e logo foi dizendo: Então, meu irmão, vamos matar uma jacarerana para conhecer a nação do pessoal? Yoi concordou e eles logo acharam e mataram urna jacarerana. Cortaram o animal em pedacinhos e colocaram num pote bem grande para ferver. Quando estava cozido, chamaram o pessoal para beber. Numa colher de pau, Yoi dava a cada pessoa um pouco daquele caldo. Os primeiros que tomaram receberam a nação de onça. Cada pessoa que bebia ia embora, ficava longe dos outros. Depois da nação de onça, veio a de saúba. O pessoal bebia e logo sabia sua nação. Ah! Esse caldo está azedo, é da nação de mutum - falou uma das pessoas. Beberam até que se criaram todas as nações que existem hoje.


(In OLIVEIRA FILHO, 1988, 90-105. I disegni sono opera degli stessi Ticuna)

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

2ª Noite Apresentação no IV FESTISOL


Na 2ª noite de apresentação (04/09) a Agremiação Onça Preta apresenta o RITUAL YO’Í, viajando pelo imaginário ticuna levamos a nação Azul e Branca até o início dos tempos onde segundo a mitologia ticuna os Deuses irmãos YO’Í e IPI, disputaram o amor de Tetchiarüngu ‘ü, que quer dizer: “moca do umari”, e que possui algumas versões diferentes contadas por anciãos ticunas, a versão que escolhemos foi que IPI não resistiu a imensa beleza de Tetchiarüngu ‘ü e a seduziu o que provocaria a ira de YO’Í  dando início a uma batalha entre os irmãos pelo controle do mundo espiritual, para interpretação dessa batalha apresentamos na arena a grande batalha entre o feiticeiro Negro montado em um morcego negro enviado por IPI e o Ser de Luz , o grande Xamã enviado de YO’Í montado em um morcego Branco, travando uma grande batalha a 15 metros de altura levando o publico ao delírio, depois de uma exaustiva batalha o Grande SER DE LUZ enviado de YO’Í vence e faz sua evolução aos jurados.

Veja as fotos:

























IV FESTISOL


No ano de 2012 na quarta edição do Festival Internacional de tribos do Alto Solimões – IV FESTISOL, a Agremiação Onça Preta trouxe otema “Lendas, Costumes e Tradições de uma Civilização Milenar”, procurando mostrar que a cultura Tikuna ainda resiste a grande influencia cultural imposta pelo homem branco.
Na 1ª noite de apresentação (03/09), a Agremiação Onça Preta traz para a arena a “Revolta dos Espíritos”, contando como os espíritos dos ancestrais ticunas ficaram revoltados pelo fato da tribo estar deixando a cultura dos brancos se sobrepor a sua cultura milenar, e com a orações do grande Pajé (Fernando Costa) conseguem aplacar a grande ira dos espíritos ancestrais trazendo a paz e a felicidade a Aldeia Tikuna.
 Veja algumas fotos da 1ª noite:

Delirio da Galera azul e branca

Jerry Alves (Cantor Tribal)


Nossos destaques


Fernando Costa (Pajé)

Valdenei (Índio Guerreiro)



J. Ferreira (Apresentador)


Mestre Motor e Sua Batucada Tribal nota 10


Thaís (Rainha da Batucada Tribal)


Karem Garcia (Porta Estandarte)



Aillyne Peixoto (Rainha do Festival)



Tribo Ticuna
Kátia Meirelles (Moça Nova)


Tribo Coreografada


Marcelle (Índia Guerreira)